2.6.05

Testemunho

Ao mail de Galarza chegou a carta aberta que aqui partilhamos. Porque às vezes há coisas que ultrapassam justificações...

«Aqui somos todos palhaços pobres.

Carta aberta a todos os que trabalham em Teatro.


Escrevo-vos em meu nome, Carlos Piecho, mas devo, também, acrescentar o nome de João Rodrigues e o de Natacha Paulino, que comigo partilharam a experiência única de representar para os reclusos do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

O que vos vou relatar não terá ordem porque as emoções são, assim, desordenadas.

A prisão é um mundo particular. É um organismo que processa de um modo diferente e estranho. Para nós, pessoas que nos portamos bem ou que temos sorte e que estamos cá fora, as leis da prisão, as que estão no papel e as tácitas, aquelas que os olhares nos indicam, são estranhas e absurdas. Há, por todo o lado, muitos: "é proibido", "não se pode", "nem pensar".

As portas fecham-se sempre atrás de nós e abrem-se só quando batemos para abrirem. Parece que só para nós, os que vimos de fora, isso é estranho.

A normalidade ali é outra. Toca-se e é metálica.

Indo agora ao princípio:

O grupo FarpasTeatro resolveu oferecer o espectáculo que estava a produzir, a alguns Estabelecimentos Prisionais, em primeiro lugar - e somos honestos - porque esse espectáculo necessitava de ser experimentado em espaços "diferentes" e, em segundo lugar, porque quanto menos nos vão dando, mais aumenta a nossa necessidade de nos darmos.
Chamem a isso, lirismo ou pretensiosismo ou qualquer outra coisa, é assim que estamos na vida, é assim e não há volta a dar.

E lá fomos, primeiro de peito aberto, mas depois de uma primeira visita de reconhecimento, já com o medo de quem vai enfrentar o desconhecido, cheio de trincos e olhares penetrantes.

E chegou o dia. Optámos pela proximidade.

O espectáculo começou. Não pela nossa ordem, os de fora, mas pela lei dos de dentro.

Percebemos que ali tinha de ser assim. Tomámos posição entrava já o público, na cadência sincopada e barulhenta de alas que é proibido misturar.

Senti o susto do meu parceiro e ele sentiu o meu. Mas, no meio do burburinho, lá veio sinal de começar.

E começámos a mostrar a nossa história de um homem que era torturado porque não gostava de palhaços e a atenção instalou-se nos olhares e indicou-nos o ritmo que devíamos ter ali. Desculpem a presunção, mas sentimos até, que estávamos a pôr alguns dos nossos sonhos a voar. Se calhar é pretensão a mais, mas pareceu-nos.

O que é que querem? Todos os nossos mínimos gestos eram seguidos como num jogo de "ping-sonho".

E o espectáculo chegou ao fim, com uma parelha de palhaços pobres a agradecerem.

E depois falámos.

Eu, tolo, tentei explicar a metáfora da coisa: Não, que nós até gostávamos muito de palhaços.

Especialmente dos palhaços pobres.

Então, lá do fundo, da ala dos mais velhos uma mão pediu para falar e disse:

"Nós aqui somos todos palhaços pobres."

Eu a tentar explicar o que ali já era mais que vivido. Senti-me mesmo tolo. Se calhar eu é que ainda não tinha compreendido tudo.

E falámos.

E por fim despedimo-nos.

E abraçámos e fomos abraçados e tocados por toda aquela gente que dali ia jantar e depois ser fechada. Às sete.

E no meio dos abraços fomos ouvindo frases como estas:

"Estive todo o fim de semana fechado, se calhar esta noite vou sonhar."

"Ninguém nos liga, venham mais vezes."

"Vocês são de Odivelas? Eu cá, sou da Pontinha, é lá perto."

E não conto mais das emoções. Foram as nossas. São intransmissíveis.

O que vos proponho é o seguinte:

Ir a estes sítios dar quase nada e receber tanto, dá sentido ao que fazemos e, a Arte, nestes tempos que correm cinzentos, anda muito sem sentido.

Vão, não levem muita tralha porque as condições são poucas, mas vão.

Vale a pena.

PS:

fomos solidários para com Ivo Ferreira, filho do meu querido amigo Cândido, que atraído a uma cilada ou por não perceber muito bem onde estava, passou maus tempos no Dubai. Os jornais, as rádios e as televisões descreveram o seu drama.

Uma das alas para quem nós apresentámos o nosso espectáculo era composta por miúdos entre os 16 e os 18 anos.

Qual terá sido a grande cilada em que caíram?

Terem nascido no sítio errado, à hora errada?

Não sejamos, então, solidários a espaços.

Carlos Piecho
FARPASTEATRO
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