5.12.05

A morte saiu á rua num dia assim, cantou José Afonso

A Morte não queria saber do dia.
A Morte é a Morte e não escolhe o dia, o tempo, a disponibilidade das pessoas, se faz ou não transtorno, se dava jeito de mudar "hoje tenho de levar o cão ao veterinário e ir pagar o IRS".

A Morte chegou a casa da Augusta.

Augusta, senhora de corpo roliço e olhos felinos, procurava o fato clássico que lhe assentava como uma luva. Já tinha ido ao cabeleireiro tratar do cabelo e das unhas. Os sapatos brilhavam. A casa estava um brinco. Ao passar pelo espelho reparou que o fato ficava-lhe mesmo bem. Estava pronta para receber a Morte de braços abertos.
Um copo de vinho tinto para relaxar e Augusta estende-se , qual gata domesticada, no sofá á espera da sua salvadora a Morte.

A Morte chegou a casa da Augusta.

Era um dia assim como os outros.
A Morte não queria saber do dia. A Morte é a Morte.
Mas hoje a Morte chegou a casa da Augusta. Ao ver tamanha beleza e relax, a Morte sentiu-se velha e cansada.
Sentou-se, serviu-se de vinho tinto, esticou as pernas e tentou relaxar.
Entre um pão alentejano, um queijinho, vários enchidos, um arroz de pato e vários vinhos, a Morte esqueceu que a Morte é a Morte e a Augusta já não quer morrer.

Hoje estão as duas em Castro Verde onde abriram uma tasca, cheia de petiscos, boa pinga e boas histórias para contar.