5.7.05

Manuscrito encontrado num bidé

«Perdido numa ponta ocidental da Europa, o viandante tresmalhado encontra uma pérola.
Esqueçam o Trans-Siberiano, esqueçam a linha de Bengala, esqueçam o Expresso da Meia-Noite.
O verdadeiro veterano das linhas férreas só o é após ter feito esta inesquecível viagem de três semanas pelo Trans-Alentejano.
O trajecto geográfico parece curto. Afinal, são apenas duzentos quilómetros, quando vistos num mapa. Mas na pele, são incontáveis milhares.
Partindo de Setúbal, o nómada ferroviário degusta a solitária paisagem alentejana durante duas horas. São agora percorridos treze quilómetros, e é hora do mata-bicho, como dizem os locais. Um frugal repasto de migas e entrecosto frito permite recobrar forças e prosseguir viagem. O combóio desliza pela planície, majestoso como um elefante, para uns, parado como um caracol morto, para outros. As horas transcorrem, melosas. Setúbal ficou para trás há cinco horas, estamos agora a trinta quilómetros da Raínha do Sado.

(continua, devagarinho)