12.7.05

Com a Torre de Belém às costas

De como ficou gravada em acta, num papel da melhor proveniência, uma certa reunião tida por Garcia de Resende e El Rei o Senhor Dom Manuel I, em que ficou firmemente decidida a construção da Torre de Belém (e outros melhoramentos), planta, estudo de impacto ambiental, expropriação de terrenos e vencedor do concurso público incluído.

Entra no aposento de Sua Majestade, lesto e bem disposto, Garcia de Resende, atirando-lhe jovialmente:
- Bom dia a Sua Majestade!
- Ãnh?! Bom dia uma porra!
- Digo-lhe bom dia assim num sentido muito geral, quero dizer! Já não é manhã, aliás, porque não é, mas é um dia que ainda vai por término.
- Que é queres, pá? Ainda mal acordei e já me vens com filosofias, pá? Vai-te aos sarracenos, camandro!

Como Garcia de resende risse prazenteiro, El Rei joga-lhe forte mais esta:
- E olha lá, que porcaria é essa de Sua Majestade? Hoje vieste cá p'ra gozar comigo, ou quê?
- Ó Manel, então não és tu o nosso senhor?
- Não. Esse é outro.
- Bom, quero dizer... O gajo que manda mais cá na Terra?
- Também não. Esse é o Leão X - se bem que mim dava-me melhor que fosse o Inocêncio Primeiro, que era para fazer um trocadilho com o numeral do sujeito.
- É que és chato, caraças...
- Bom, bom, anda lá, não te amofines com a coisada toda, pá! E diz logo ao que é que vens.
- Pois, ouve! Tive uma ideia que ainda há-de servir para o Inverno. Que tal fazermos a Torre de Belém?
- Que é lá isso, ó Resende?
- É um monumento, Senhor Manel, amigo.
- Um quê?
- É uma coisa que serve para ser vista por turistas e para os indígenas sentirem orgulho da nação.
- P'ós quê? Raios te partam, Barroco do caraças!* Explica lá isso no bom Português medieval que nós falamos!**
- Bom, então é assim: fazemos uma torre no meio do Tejo, ali às praias de Belém, que há-de ser um monumento para atrair turistas e divisas estrangeiras daqui a uns séculos, mesmo que aquilo feche aos fins-de-semana e feriados.
- Está tudo muito bem, ó Resende, mas explica lá bem o que são essas coisas que isso para mim é Malaio, companheiro.
- Ora! Então, 'tá-se mesmo a ver... Monumento é uma coisa antiga e bem tratada, de preferência feita de pedra, e os turistas são viajantes estrangeiros que hão-de ir de terra em terra, para aí uma vez por ano, só para conhecer povos e diversas formas de vida.
- Tem cuidado, pá senão ainda te sai daí um fadinho!
- E então, que tal a ideia?
- Eh! Isso a mim não me diz nada. Para que é que serve?
– Há um sapateiro lá por Trancoso que diz que isto um dia vai correr mal, pá, que isto vai deixar de ser a maior potência económica do mundo e que o povo vai ver-se um bocado à rasca por não ter outras fontes de rendimentos, ainda mais agora que vamos expulsar os judeus, de modo que pensei: vamos preparar o futuro, Resende, vamos inventar o turismo.
- Sim, sim, mas no meio do rio? Assim ainda temos que inventar a Transtejo para levar lá esses ditos turistas à torre.
- Também não há problema. Quando aquilo chegar a fazer falta já foi feito o Aterro, e a praia há-de chegar mesmo poucos metros do monumento.***
- Óquei.**** Mas as divisas o que são?
- É dinheiro, Majestade minha. São ducados, ceitis, ou o que quer que os estrangeiros venham a usar como moeda daqui a uns séculos.
- Está, ó Resende. Manda lá fazer isso. O Francisco de Arruda que venha das Áfricas e que me faça um projecto para a coisa. E olha, já que estamos com a mão na massa, manda inventar os pastéis de Belém, que é preciso dar de comer a essa chusma que por aí há-de vir.
- Ó Manel, já vi que percebeste o conceito, compincha Majestade!
- Sim, sim. E para esses tipos não se armarem em parvos, vamos dar-lhes uma civilização e uma antiga potência mundial como ninguém nunca viu. Queres ouvir?
- Uhu! Isso, meu. Manda a brasa!
- Sendo assim, ainda quero por bem que se construa um mosteiro consignado aos Jerónimos lá na mesma ermida de Belém e que se façam janelas e outras coisinhas bonitas ao meu estilo por todo o Portugal. Mas uma coisa que não envergonhe ninguém! Que os meus vindouros súbditos digam à boca cheia de El Rei Dom Manuel, o Venturoso, e do meu reinado que foi a época de ouro deste povo.

Garcia de Resende em profundo êxtase sorria alarvemente, babava-se e balbuciava:
- Triunfal, Sua Majestade! É triunfal!

El Rei, tomado de um paroxismo megalómano, vítreo, alucinado:
- Porra! E vai lá a Roma ver o Papa, levas uns elefantes, mais uns bichos esquisitos que venham das colónias, uma talega de ouro, prata, e do que conseguires deitar mão, e levas tudo ao Leão, que é para o gajo ver quem é que é quem!
- Isso, isso! Meu Deus, como sou abençoado por ouvir estas coisas em primeira mão! Estou praticamente ungido, pá.
- É, não é?
- Ai!
- Sou muita bom!

Suas senhorias caem prostradas em seus cadeirões por um instante, sonhadoras, olhando para o Convento do Carmo assim pensando:
- Se ao menos aquele ficasse em ruínas!

Saindo agremente da nuvem etérea de onde estava voando, ordena El Rei:
- Vamos almoçar, pá, que de trabalho já chega por cinco séculos ou mais! Parece que hoje há aí um bacalhau com batatas que está uma maravilha.*****
- Eh, lá! Vamos a elas, que bem merecemos.

* O Barroco ainda não tinha sido inventado, por isso El Rei estaria provavelmente a gozar com o cronista, porque fingia que não estava a perceber umas coisas, mas afinal devia saber tudo só que estava a armar em parvo para chatear.
** Estão a ver!
*** Mais uma no cravo. O cronista sabia bem por que linhas se cosiam os fatos pátrios. Era um visionário e um homem de cultura. Bem podia ter ido a Presidente da Câmara.
**** Deste anacronismo podemos dizer que é dúbio, pois as fontes não elucidam se El Rei se referia ao desporto ou ao assentimento.
***** Dom Manuel, ao que nos é dado a perceber era pessoa de gostos simples e pouco dado a exotismos, apesar da importação e cultivo das batatas ainda não ser prática corrente, tanto em Portugal como de resto na Europa.