Excertos do diário de Pedro Álvares Cabral
9 de Março
Rogo ao Senhor Nosso Deus protecção nesta longa jornada que não pretende mais que aumentar a sua glória, aqui nos mares como nos céus, e sei que ma dará pois aqui juntou a mais valente tripulação que se poderia desejar.
11 de Março
O escriba apontado por senhor El Rei mexe-me com a bílis. Sua graça, pouca, é Luiz D'Hilgado, e dizem-no protegido do nosso mui amado Rei.
16 de Março
O escriba renegado está assanhado, brada aos quatro ventos que nos enganámos no caminho, que bem disse que devíamos ter virado à direita, que nos vamos arrepender de não lhe dar ouvidos, patati patatá.
28 de Março
O dia despontou em tons escuros, aproxima-se borrasca. Para piorar, o escrivinhador de Belzebu rasteja pelos cantos a arranhar o canhenho com risinhos idiotas e a rosnar «eu bem disse, eu bem disse» com modos de possuído. Rogo a Deus que me dê forças.
30 de Março
Glória ao Criador. A tempestade de ontem forçou a manobras bruscas a estibordo. Perderam-se apenas três barricas de água, mas não estimo virem a fazer falta. Ah, e parece que o escriba não tem aparecido.
5 de Abril
Sente-se uma aragem tépida, anunciadora de paragens acolhedoras. Afonso Vaz sugeriu que voltássemos atrás, que talvez o escriba tenha desaparecido na borrasca. Recusei a sugestão e acalmei o bom Afonso, os artistas são assim, gostam de se recolher para melhor digerirem as suas impressões. Deixá-lo estar sossegado.
Esse moço aí, como lhe chamam? Pêro Vaz, meu bom homem, sabes escrever?

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