E Agora?
- E agora, Errol Flynn? - perguntava o ambicioso jovem jornalista com a lapiseira em punho, enquanto gesticulava ordens ao repóter fotográfico para apanhar o ângulo mais masculino do tansmaniano.
- Diabos me levem se sei o que dizer! - respondia-lhe Flynn, com uma mão no bolso que chocalhava uns cents nervosamente e com a outra agarrada ao cigarro, como se um náufrago se agarrasse à jangada improvisada com os restos do navio almirante.
As eleições estavam viciadas desde o princípio e toda a gente o sabia, excepto o pato, que por obra e graça de um grupo de cidadãos concertados, teria de fazer frente aos grandes tubarões do voto com uma candidatura de faz-de-conta. A instituição democrática precisava de uns ingénuos para imolar de vez em quando. O povo ria com algum cinismo da velhacaria executada sobre o pobre palerma. Quando já não se espera nada da vida, mesmo os mais humildes, se encontram um motivo para apoucar alguém, fazem-no até à exaustão.
Na cidade, os carros eléctricos passavam com a mansidão do costume aos olhos amadornados com os vapores da poluição amarela das indústrias do Norte.
- Mas quem é que vai pôr isto em pratos limpos? - insistia o jornalista, com o esgar irónico de quem julga ter a mão cheia de trunfos.
Errol Flynn olha para o relógio impecavelmente cadenciado no pulso e responde-lhe com enfado:
- Turkey, tens que deixar de te preocupares com a mulher do homem do talho, entre outras coisas, se quiseres realmente chegar à fala com as pessoas que lançam os dados nesta cidade.

<< Home