26.10.04

Paúl de Exportações

Era um paúl à beira mar plantado que sobrevivia com umas couvitas e umas batatitas semeadas no quintal à porta de casa e numas quintazitas, que ficavam por entre a Estrada Nacional e a fábrica de pincéis. Este paúl, era o maior lodo do mundo, mas as pessoas de fora gostavam de cá vir passar férias e fazer uns negóciozinhos com os chefes indígenas, que eram uns porreiraços. Era uma fartura. Os senhores estrangeiros vinham às compras e, mesmo sem regatear, levavam sempre duas ou três peças pelo preço de uma.
A malta que andava a limpar as ruas e a pôr os pratos nas mesas dos senhores também era do mais porreiraço que havia. Os turistas lá dos outros sitios não queriam outra coisa, era só vir um destes galhofeiros, que logo eles se sentiam em casa. Ele era uma alegria. Até pareciam os criados bem educados que eles tinham lá em casa. Não diziam palavrões, faziam vénias e só cuspiam na sopa uns dos outros, talvez por de brincadeira, ou por umas vingançazitas lá deles (com esta rapaziada extrovertida nunca se sabia lá muito bem). Eram tão simpáticos os habitantes do Paúl Baixo, que muitas vezes até se podiam levar alguns para exportação, até porque eles se habituavam facilmente ao tempo nas outras terras e faziam tudo o que era preciso, fosse com calças vestidas ou mesmo que estivessem um bocadinho rotas. Mas não fazia mal, porque lá para onde eles iam, haviam aquecedores centrais em todas as casas: até os casebres mais lúgubres da periferia tinham lareira.