Poema de: Gil Vicente
A Afonso Lopes Çapaio
Estando em Santarém muito doente de câmaras
Trovas
I
Senhor, eu ia-vos ver,
para vos ver e ouvir,
e eu ouvi-vos gemer,
um gemer e espremer
como arremedar parir.
Eram câmaras sem telhas
para vós agastadiças;
vós cafgado até às orelhas,
as vossas calças vermelhas
tinheis-las por corrediças.
Vosso cu com surdos brados
apupava a seus vizinhos,
que estavam dependurados;
um deles, por seus pecados,
cercearam-lhe os focinhos.
Diz que tínheis tal desmaio
na tripa do cagalar,
que vos disse o mês de Maio,
melhor vos fora, Çapaio,
que cagareis em Tomar.
Outras
II
Pois vosso negro bespeiro
se vasa no mês de Maio,
Afonso Lopes Çapaio.
Que quem tem vida guaiada
coma vós da vossa sorte,
por vós é cousa provada
que quem tem vida cagada,
cagada há-de ser a morte.
Quando vierdes à corte,
e o cu vos der desmaio,
dai-o ó Demo, Çapaio.
Tomareis destes vasculhos
que pintam pelas paredes,
uns à vela outros já vedes
e tapai esses angulhos,
assim que o pousadeiro,
que vos pôs em tal desmaio,
se o quereis vedar, Çapaio.
Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Antígona Frenesi, 3ª edição, Lisboa 2000

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