A Paixão Segundo
Apaixonei-me em Moscavide e foi a pior coisa que já me aconteceu. Desde esse momento, sublime ou rídiculo, vejo-me obrigado a passar por essa vila pelo menos uma vez por dia. Às vezes tenho que dar voltas imensas, correr quilómetros e mais quilómetros, como um doido, sem me aperceber da doideira que um cabelo castanho escuro, tão vulgar como outro cabelo castanho escuro qualquer, me faz cometer. Foi um azar tremendo, porra, apaixonar-me em Moscavide, com tantos sítios com tantas mulheres por quem me poderia apaixonar.
Há noites em que mal chego a olhar lá para cima para a janela do quarto dela no terceiro andar, saio logo a correr para não ser visto de maneira nenhuma. Bebo um ou dois copos no bar ao fundo da avenida a ver se ganho coragem para olhar mais um bocadinho lá para cima, só para ver a luz no quarto dela filtrada pelas cortinas, ou para vê-la a fumar à janela e a largar a cinza para cima de quem passa na rua. Eu sei que ela é uma senhora bem ordinária, que tem uma voz enervante, que é pior que suburbana, orgulhosa da sua babilónica ignorância - não consegue articular uma frase em que haja ao menos concordância. Tem a mania de andar por aí com uns penduricalhos à cintura que tilintam e que se ouvem na rua inteira de ponta a ponta. Mas o pior é o seu riso histérico e odioso que se liberta por qualquer coisa por mais estúpida que seja, e se espalha em redor como um relincho ou um grunhido alarve.
Um dia destes trouxe um amigo cá a Moscavide para a ver e dizer-me o que achava dela. "É uma grande vaca", disse-me ele, "tem umas boas mamas." Que azar do diabo, apaixonar-me em Moscavide, mas que hei-de fazer, ele há segundos assim.

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