6.8.04

A Linha é de Ferro 15ª

Cada vez que sai à rua, a cabeça grisalha da avó aparece-lhe à janela para gritar "Não te constipes!", e o Edgar fica com um nó no estômago, que chega quase a arruinar-lhe o dia logo ali, e pensa "Porra que a velha é maluca! Então um gajo sai à rua de propósito para se ir constipar, ou quê? Se calhar um gajo tem para aí um sítio especial onde se vai constipar de propósito com a malta, que é para depois ficar tudo de cama e só se voltar a encontrar lá para o fim do mês. É mesmo maluca."
De repente dá por si a querer rir da ideia de se ir com "a malta" toda lá para a margem do rio, todos a mergulhar na água gelada que mais parece ferro a cortar os músculos, a deixarem-se despidos e molhados a apanhar o ventinho do Norte, à espera que se constipem ou apanhem uma pneumonia. A pensar numa excursãozinha à farmácia da Rua Deserta, uma verdadeira incursão de terroristas na terra do fármaco legalizado, para comprar os antigripais, roubar os preservativos da caixa por cima do balcão e fazer balõezinhos com eles atirá-los em todas as direcções. A ver o capachinho do Doutor desaparecer misteriosamente para dentro de uma gaveta e homem atormentado sair porta fora aos gritos.
De repente já está com a malta toda a espreitar para dentro da blusa sempre hiper decotada da farmacêutica, que ouve deliciada os piropos todos dos rapazes, mesmo os mais escabrosos "Ó sôra doutora, olhe qu'a senhora ainda 'tá muito na linha!" "A doutora alinha?" e ela responde com risinhos de satisfação, de ego bem preenchido.
O raio da avó com a cabecita fora da jenela da sala lá ao fundo da rua ainda a gritar e o Edgar irritado a dar pontapés nas pedras e no lixo que encontra pelo caminho, a esfolar os ténis novos.