A Linha é de Ferro 14ª
Gárgula desfaz-se em tristeza a cada fim de dia, naquelas horas de trânsito entre o emprego e o lar em que se sente mais só. Não é que não goste de passar as noites todas em casa, que gosta. Aliás, assim que entra em casa e pousa a sacola de qualquer maneira em cima do sofá, ou desleixadamente no chão, sente-se maior que qualquer afortunado da alta finança. Em casa tem tudo o que precisa para se sentir bem, e ele sente-se esplêndido, em forma e cheio de vontade de ficar quieto.
Gárgula vai sempre pela mesma linha e não gosta nada de mudanças. Por mais pequenas que sejam para ele é sempre um suplício, uma provação, sentir que há uma pedra qualquer, ou um ferrinho por mais pequeno, que se lhe ponha debaixo dos pés, alterando-lhe de qualquer forma o caminho que ele já tem ensaiado mais de um milhão de vezes.
Ao fim do dia sente-se sempre triste, por mais que faça, não consegue deixar de se sentir lacrimejante a olhar pela janela do comboio e a ver vazios, a desviar-se dos olhos dos outros, a fugir-lhes das vozes. Anda pela rua em passo estugado, camisa desfraldada, sempre apressado, a fugir de alguma coisa indefinida que o não persegue.
Que raio de hora do dia em que tudo lhe é solidão e má sorte, que não consegue ser o homem de nenhuma mulher, que não se presta a sair da cepa torta e de se ver como o mais inepto de todas as pessoas que conhece.
Ninguém lhe há-de dizer num desses fins de dia, enquanto resta uma luzinha de sol, que ele tem a imaginação avariada e é melhor levá-la a reparar na oficina.
Gárgula não existe para as estatísticas.

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