Poema de: Maria Helena
Momento Desesperado
Raiva do medo que me tolhe os passos
E me não deixa caminhar!
Raiva da indecisão dos meus abraços...
Raiva da imensa fome de abraçar!
Raiva ante a tentação de todas as subidas
E dos mil cimos conquistados.
Raiva das mãos caídas
E dos ombros vergados.
Raiva de só beber água que é minha
Quando o fogo de ti é que nasceu.
Raiva de ver voar um andorinha
Sem perguntar a quem pertence o céu...
Raiva de me saber profundamente triste
Quando há gente que vive e sabe rir.
Raiva de mim, de tudo quanto existe
E de tudo o que está por existir.
Raiva de não poder mudar a sorte
E a mágoa consentida.
Raiva da Vida, que não traz a Morte!
Raiva da Morte, que me deixa a Vida!
Raiva da noite sem entardecer
Que apagou o meu dia.
Raiva mortal que me não deixa “ser”,
Quando “ser” era tudo o que eu queria.
Raiva de me sentir de boca exangue,
Lábios que o desespero torce e laiva.
Raiva profunda de ter sangue
Porque é no sangue que escabuja a “raiva”
Raiva da lua imaculada e calma
E do Sol que não deixa de chamar-me.
Raiva de ser de carne e de ter alma
E não poder negar ou a alma ou a carne!
(Maria Helena, «À Eterna Luz dos Infinitos Sóis», Lisboa, 1954)

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