19.3.04

Poema de: Joaquim António Emídio

Elogios
XXIII


A felicidade é acender um cigarro com o outro

começar um poema num lenço de papel ranhoso

levantar voo com um peido
no meio de uma esplanada bem frequentada

entrar no mar e sair da água com uma sereia no
olhar

aprender a foder com a picha murcha

ir para a cama com uma puta e não sentir vergonha

a felicidade é quando um homem sonha

sair da velha casa
e regressar à nova morada

adormecer ao teu lado
de barriga cheia
comendo-te apenas
as bolachas maria

andar a cavalo nas tuas costas
e cair do cavalo para as tuas coxas

com o cheiro do teu perfume e do teu suor
ir para a cama com outra mulher

cair como um tordo nos teus braços
mas poder continuar a caçar aos tordos

a felicidade é quando um homem sonha
e tudo o que a vida não lhe dá ele rouba.

(Joaquim António Emídio, Elogios, Terra Branca Editora, Santarém)