13.3.04

Poema de: Idálio Juvino

Poema de Pé
(ou em Semi Pê)


Emprestei os meus pés de pato
a um palhaço que não me pagou.
Peregrinei até à soleira da sua porta
perguntando-lhe ao pulha:

«Eh! Pá! Quando é que purgas
o rol de pulgas ao pobre pedinte?»

E o palerma ali parado, a olhar
para mim sem dizer palavra,
pôs-se prostrado com a pega
da panela na mão e pediu-me
para lhe publicar uns versos
que tinha apascentado a papas
de pão.

Pareceu-me coisa política.
Vai daí, pregando peixes
na grelha ou no prato,
não tornei a esquecer-me da
questão profilática:
«Pedras só ao pequeno-almoço».

Tudo muito bem polido,
dá uma parte para cada
plenipotenciário apanhar
a sua congestãozinha.

Alguém se perdeu?

Idálio Juvino, «O Casaco Rasgado», Editora da Torre, Alpiarça, 1985