29.10.03

Bicicleta em contramão

Armando Silva da Mota
Só anda de bicicleta
Tão grande contradição
É como um avô sem neta

Só circula em contramão
Só circula em linha recta
Tem sopro no coração
Não pode chegar à meta

Já quis dar a volta ao mundo
E o mundo deu-lhe a volta
A bicla é o seu corcel
Pedala com rédea solta

Aquilo que mais anseia
É ir de Beja a Viseu
Aquilo que mais receia
É um furo no pneu

Se um dia, cruzes-canhoto,
Um enorme camião
Mandar a bicla pró esgoto
E Armando pró caixão

Em vez de flores na campa
Porei sua bicicleta
E inscreverei na tampa
«Já chegaste à tua meta!»